Quando Abraão tinha 99 anos, Deus renovou sua aliança com ele e reafirmou a promessa de que seria pai de uma multidão de povos (Gênesis 17). Nesse momento, seu nome foi mudado de Abrão para Abraão, e o de sua esposa, de Sarai para Sara. A mudança dos nomes simbolizava uma nova etapa na história do casal e sua missão dentro do plano divino. Abraão, cujo nome é associado à ideia de “pai de uma multidão”, seria o patriarca de numerosos povos, enquanto Sara, apesar da idade avançada e da esterilidade, receberia a promessa de ser mãe de nações e de reis.
Como sinal concreto dessa aliança, Deus instituiu a circuncisão, que consistia na retirada do prepúcio e deveria ser realizada em todos os homens da casa de Abraão e em seus descendentes. Os meninos deveriam ser circuncidados no oitavo dia após o nascimento. Abraão obedeceu à ordem divina, sendo circuncidado aos 99 anos, enquanto Ismael, seu filho com Agar, tinha 13 anos. A circuncisão tornou-se, assim, um sinal de pertença à aliança estabelecida entre Deus e o patriarca, transmitida de geração em geração.
Ao longo dos séculos, essa prática tornou-se uma das marcas fundamentais da identidade religiosa do povo judeu, permanecendo viva até os dias atuais. Também se difundiu no islamismo, cuja tradição considera Abraão — chamado Ibrahim — e seu filho Ismael — Ismail — figuras importantes da história sagrada. Embora o Alcorão não determine explicitamente a circuncisão nos mesmos termos do Gênesis, a tradição islâmica a preservou como prática religiosa associada à tradição de Abraão.
No cristianismo, por sua vez, a circuncisão deixou de ser exigida como condição para pertencer ao povo de Deus. Nos primeiros tempos da Igreja, surgiu a questão de saber se os não judeus que se convertiam a Jesus precisariam também ser circuncidados. Conforme narrado em Atos 15, os apóstolos decidiram que essa obrigação não deveria ser imposta aos convertidos gentios. São Paulo também ensinou que a justificação e a pertença à comunidade cristã não dependiam da circuncisão física, mas da fé em Cristo. Na tradição católica, o Batismo passou a ser compreendido como a porta de entrada sacramental na vida cristã.
Dessa forma, Gênesis 17 reúne três elementos fundamentais: a mudança dos nomes de Abraão e Sara, que marca uma nova etapa da promessa divina; a circuncisão, estabelecida como sinal da aliança; e a continuidade dessa história nas tradições judaica, cristã e islâmica. Milênios depois, esses acontecimentos continuam importantes para compreender as origens e as diferenças entre as três grandes religiões monoteístas que reconhecem Abraão como uma figura central de sua tradição espiritual.
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